quarta-feira, 7 de março de 2012

Atestado de pertencimento

A Poesia é esse instrumento de loucura
A favor das minhas cifras silenciosas
Que descombinam das tuas falas cantantes.
Porque, como uma doida, a poesia me aparece
No limiar entre o sono e o olhar racional
Que te procura, (não sei porquê) te procura
E te encontra crescido e crescente
À meia-luz.

A loucura, esse instrumento de poesia,
Em algum momento me foi transferida
Usou tua boca e teus ombros pra se delinear
Mas agora é minha. 

E, por fim, a meditação, nosso instrumento
Te contempla. Te espera. Te gosta.
Me conta coisas delirantes
Sobre amar, odiar, temer
Mas eu não quero entender.

_A poesia foi feita pra ser entendida?
Retrucaria (eu), face a teus questionamentos.
Meditaríamos (nós), frente ao suspense.

E concluiríamos o óbvio, esse grande absurdo
Sobre o amor ser estranho, repentino, contraditório,
Inconveniente, misterioso, delicado,
Numa linguagem tão irracional universal.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

O elefante branco, à espera de um prisma

Bom, vamos relembrar o nascimento dos sentimentos: a gente engravida das sensações, as vai alimentando com estrelas, elas tomam feições particulares e passam a ter vida própria – o sentimento. Daí por diante, pouco lhe importa se você não o quer mais, ele vai crescendo, brigando por espaço, fazendo cobranças parasitas, decidindo a hora que sai o Sol.

Portanto, fica claro que a culpa é nossa, e só nossa, por tais maternidades, são nossas as sensações e os sinais que despertam o instinto tão natural ao homem de criar algo seu. Será que, por ser mulher, sou eu mais propensa a engravidar de sentimentos? Oh, diferenças insuperáveis entre o homem e a mulher... Oh, Romantismo egocêntrico, que sempre quer falar do “eu”! Mas falemos de você – através de mim...

E
U tinha 16 anos quando me apaixonei. Não podia beber, fumar, dirigir nem ser presa (mas a lei permite o casamento). Eu engravidei de um poema seu, belo poema, eu toda virgem, empapuçada de palavras.

Existe algo esquizofrênico e muito perigoso nas palavras, que é essa história de criar universos independentes, e muitas vezes, intermináveis. E eu, apaixonada e grafomaníaca, condenei o nosso sentimento à eternidade quando o envernizei de palavras. E você, seduzido por minhas sereias literárias, achou de também me enfeitiçar com as suas (palavras, sereias...), e assim criamos verdades lindas, etéreas e intocáveis. O poder do amor me subiu a cabeça – eu ainda virgem! – desceu para o corpo, te possuiu por dentro, e trancou nossa memória amorosa por todos os lados, pervertendo a alma, santificando o corpo e maltratando o meu coração humano, doido para se sujar na lama, mas que está cego e esquizofrênico, perdido em nosso Éden já abandonado.

Então, por favor, não tente procedimentos cirúrgicos. Vivo gostosamente, viajo mais de uma vez ao ano, me apaixono quando é lua cheia, faço sexo quando tenho vontade: são amores que teço e desteço, teço e desteço, a sina eterna de toda mulher, que é ser Penélope e Pandora. O mal está diagnosticado, hoje falam de gravidez psicológica, mas os sintomas são reais. Olhe bem para o meu amor, (ex) amor! Grande e grandioso, nobre, permanente solstício, todo feito de um vermelho em paz. Já não me acorda de madrugada, nem me pede novas esperanças; é amor bem-comportado, embora nunca vá chegar a ser burguês. Eu já não te acho bonito, você não me faria mulher, não pactuaria com os seus defeitos e vícios e, no entanto, te amo. Peço até desculpas. Não quero pensão.

Entretanto, peço licença. Meu amor, esse elefante, vai passar na sua rua, e vai te incomodar. Entre carros e passados, ele faz graça, dando suas passadas avassaladoras e musicais.


segunda-feira, 28 de novembro de 2011

O que não transborda, não mata

E os poetas que não me entendam mal. Nada contra paixões que inundam cidades, lágrimas que movem moinhos ou qualquer tipo de exagero sentimental. Faz parte da evolução do homem compreender o seu tamanho. E como tudo na vida: se transborda, é muito; se falta, é pouco.

E continuaremos a fazer isso por algum tempo. Porque existe um vazio que quer desesperadamente ser preenchido, e que quando entra em contato com emoções muito intensas, acredita que sarou. Feito quando a gente arruma um machucado maior e acha que o primeiro não dói mais.

O problema não está em transbordar, estar em ser transbordado. Porque, no fundo, nos deixamos transbordar simplesmente por não sabermos como encontrar essa fonte de felicidade escondida por trás das nossas angústias, dos medos e desacertos, essa fonte que só pede tranquilidade pra lidar com o que quer que seja. Mas, uma vez encontrada, o mar para de fazer tsunami da gente. Mas a maresia e o seu marulhar continuam, sonoros e serenos, mostrando que há vida circulando e acontecendo em cada célula. E, sabendo o caminho, se torna delicioso transbordar pelos olhos, boca, pelos, e se perder até anoitecer, porque sabemos voltar mesmo de olhos fechados.

E como tudo na vida é contraditório, que não se esqueça: o momento do desapego é o único momento passível de se eternizar. Porque, aí sim, estamos plenos. Auto-saciados. E então, o que chega, fica, mas não transborda. Não agride, só se espraia – se quisermos. Se não quisermos, pousa e vai embora. Talvez dê vontade de chorar, talvez não; e certamente a completude não é o que querem aqueles que procuram versos sombrios ou o alto-mar dentro do próprio quarto, mas quer saber? Estar pleno, do lado de alguém também pleno, é melhor do que transbordar – é ser. E isso, como seres vivos, sabemos que é bom demais. 

domingo, 9 de outubro de 2011

Ode ao desequilíbrio

Um deles era todo organizado, certinho. Tinha feito todos os cursos de vida e tinha ternura e plenitude pra dividir e multiplicar. E eu já me era um pouco mais equilibrada, bonita, é claro, já nem bebia tanto assim e adorava estar do lado dele, que era formoso por dentro e pacífico por fora. Depois de nadar e nadar, em pleno alto-mar eu encontrava um banco de areia, porto seguro em plena guerra, na doce liquefação sentimental que eu fazia de mim.


Mas ele tinha uma questão que jamais atearia fogo no meu carinho calmo: nada sabia do caos. Nunca tinha estado na sarjeta, nunca tinha se sujado, nunca tinha tomado um porre, nunca tinha sido humilhado e, com graça e louvor, alcançara aquele estado de paz, e nele ficaria. E eu, o que faria com aquele azul todo? Pintar de vermelho? Encharcar de vinho? Afogar em jazz?

Eu, não. Não o amava; e também, como amaria? Eu, geminiana múltipla. Não, não eu.


Brincava de desordenar aquela paz. Ele percebia, não maldava, e logo se colocava de novo num lugar sereno, sem sereno. Eu lhe fazia convites pra chuva, ele ia, mas lá ficava como um cachorro feliz, ignorante. Eu lhe queria índio que se limpasse e dançasse, num ritual muito profundo e natural de existir e se purificar. (Ele, talvez, por força de um desejo velado, só me quisesse.)

Quando eu cansava da brincadeira, eu guardava ele no armário.

Mas eu também, pouco familiar com a ideia de que aquele ser também tinha suas complexidades, não tinha me dado ao trabalho de verificar: era escorpiano, e muito. Em seus acessos de ciúmes vi nascer o fogo nos olhos, aquela coisa, ele cheio de desdém pelas minhas meninices, e eu toda assustada e afogueada por aqueles mistérios. Ele tinha anulado em si toda a fatalidade apaixonada do veneno, e quase de propósito eu queria conhece-la, de curiosa que era.

Comecei a provoca-lo mais e mais. Ele ainda sem entender, sempre fingindo não reagir, mas do nada puf: a magia em seus olhos outra vez, crepúsculo de mil sensações, e eu espectadora, infantil. Sem querer, desfiz a sua paz. Afoguei sua vida em caos. E ainda espero que ele ressurja, fênix, pra me contar como é a paz depois da guerra, e pra dormir ao meu lado, atento e refeito, escorpiano sexual e amoroso: que ele, já sabedor de como me acalmar, aprenda, também, a me tirar a paz. 

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Sobre a gratidão, sobre segundas-feiras e sobre os meus motivos

Ontem senti saudades da melancolia. Assim e por nada, saudade do vácuo que ela faz no peito e que cobra respostas, incita vontades: escrever, amar, pintar de azul as cortinas do Sol... o bem-estar, por vezes, rasa. Eu queria mergulhar no cinza pra me sentir humana.


A meditação é linda de tal forma que faz com que qualquer sensação tenha gosto certo, e que o sentimento explore cada centímetro da alma. Faz com que, qualquer coisa, aconteça. E foi assim que hoje eu acordei melancólica. Em plena segunda-feira.

Por isso, sou grata. Fazendo imenso esforço, dispenso a vítima romântica, uma das minhas principais máscaras, pra agradecer, seja lá a quem for, por me dar de volta a sensação da segunda-feira, tão necessária pra me perceber, também, vulnerável. Segunda-feira que me despertou chuvosa, por sinal (me esforço pra evitar o egocentrismo, tamanha a exatidão com que o Universo me concedeu o pedido).

Se você quer saber, eu devo lá ter meus motivos pra querer me nublar. Sabe que o ser humano é esquisito de uma maneira tão contraditória que às vezes fica mais bonito e mais entregue quando sofre? Acho que eu queria ficar mais bonita.

Porque a vida ainda é feita de muitos símbolos, símbolos que já estão tatuados inevitavelmente. E porque hoje é uma segunda-feira chuvosa de Lua Cheia, e porque eu sou mulher, poeta e apaixonada, eu peço melancolia, símbolo-chave pra poder (te) escrever. E quem sabe a terça-feira me ensolare os sentidos, e a Lua Cheia ache de me engravidar não de poemas, mas sim de feitiços, que vão te trazer até a mim. Aí sim, calados, não precisaremos de símbolos. E nem de segundas-feiras.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Fundamental é mesmo o amor, não as leis de amor

Eu não tenho como buscar, nem quero definir, o que são todas as relações loucas e mágicas que tive a oportunidade de (bem) viver até hoje. Então não venha você me dizer como as coisas devem ser feitas, ou quando o sexo é bem-vindo, ou se é elegante ou não fazer isso e aquilo na frente dele... seja inteligente o bastante pra compreender que cada relação tem seu ritmo próprio, suas próprias verdades, uma trilha sonora solar e um momento onde ela cabe, e um momento onde ela não pode ser. Se você tentar enquadrá-la em outro modelo, em outra situação, pra forrar suas imperfeições como se forra um sofá, você vai uniformizar toda a sua singularidade. Esse negócio, também, de anular muitas relações por uma só é não perceber que uma depende da outra, é a simbiose natural do coração e da mente de um homem: todos nós precisamos alimentar todas as nossas relações saudáveis porque a cada uma delas corresponde um pedacinho do nosso corpo, um aprendizado no fundo da memória e um momento tão vivo que parece que tá pra acontecer de novo a qualquer hora. Relacionamento aberto? Não sei, talvez, se a minha bagagem cultural entrenhada em todas as minhas células permitir... mas uma relação é muito mais do que toque, do que sexo, encontros, traição. Uma relação não pode ser apagada nem transformada em nada, porque a partir do momento em que ela existe, é independente, não morre (às vezes acontece de ficar doente, aí vira ferida, mas não morre). Pare com isso de ficar rotulando as coisas! Namoro, amizade, paquera, casamento, mas que saco! Cada um sabe do olhar que lança ao outro, e não precisa de nenhuma classificação pra explicar. Se você não quiser ser corno, simplesmente seja natural, se entregue totalmente ao sexo e se esforce pra cuidar do seu amor, e pronto, sua relação não vai ser traída. Quanto ao resto, é melhor não pensar. Mas que mania o ser humano tem de ficar pensando em desgraça em vez de aproveitar esse nosso maravilhoso fardo: “é impossível ser feliz sozinho”...

essa sou eu falando comigo mesma, e tentando me convencer a não padronizar uma relação linda, com um moço lindo, com quem eu adoro conversar, mas com quem não preciso de palavras. Se a nossa história dá livro, eu não sei, mas música não falta pra gente duetar. Eu já te beijei de todas as maneiras, agora te escrevo sem pudor algum: vamos brindar o que é diferente e viver mais uma noite do nosso jeito, com os nossos limites, de uma maneira que ninguém pode fazer igual...  

terça-feira, 19 de julho de 2011

SODADE

Que saudade de sentir saudade, Deus meu. Aquela saudade doída, de fechar os poros, de ferver o sangue, doença misturada de ansiedade e prazer masoquista, nostalgia e expectativas sangrentas. Saudade do beijo de saudade, do gosto que ela deixa nas tardes, do frio que ela vem dar do nada, espírito assombroso. Loucura que dá nos melhores, que venha ausente de possessividades, e doce como a chuva ácida das grandes cidades: saudade. Que quando vem insuportável, dá vontade de jogar fora, arrancar o peito. De se jogar em entregas e esperas. Megalomanizar uma coisa dentre tantas outras, esse é o papel da saudade, dar à vida uma grandeza doce de balão esvoaçante nos azuis e cinzas da memória. Saudade, essa doida, invenção humana, me diz se sou eu que tenho que te reescrever ou se ando é com saudade de mim.